O PROPÓSITO DA ADOLESCÊNCIA | mind

Opropósito daAdolescência

Nos últimos anos, descobertas surpreendentes nos estudos de imagens cerebrais revelaram mudanças na estrutura e no funcionamento do cérebro durante a adolescência. Como vimos, interpretações desses estudos conduziram a uma versão bem diferente da velha visão de hormônios ensandecidos do cérebro adolescente. Uma visão comumente declarada pela mídia, embora imprecisa, é a de que o principal centro de controle do cérebro, o córtex pré-frontal, na parte dianteira do lobo frontal, ainda não está suficientemente maduro antes do final da adolescência. Essa “imaturidade” do córtex pré-frontal do cérebro “explica o comportamento imaturo dos jovens”. Essa noção também explica por que empresas de aluguel de carros geralmente não prestem o serviço para menores de 25 anos. Mas, embora fácil de engolir, essa história simples não se sustenta frente às descobertas científicas além de não abordar uma questão essencial.

 

Em vez de considerar a etapa adolescente do desenvolvimento cerebral apenas como um processo de maturação, um processo de deixar para trás modos de pensar antiquados ou de pouco uso e rumo a transição para a maturidade adulta, seria mais preciso e útil considerar a adolescência como uma parte vital e necessária de nossas vidas individuais e coletivas. A adolescência não é apenas uma etapa a ser superada e sim uma etapa da vida para ser cultivada da forma certa. Essa nova e importante mensagem, inspirada nas ciências emergentes, sugere que as mudanças que ocorrem no cérebro adolescente não são meramente uma questão de maturidade versus imaturidade, mas de mudanças de desenvolvimento vitalmente importantes, que permitem o surgimento de novas habilidades. Essas novas habilidades, como discutimos, são cruciais tanto para o indivíduo quanto para a nossa espécie.

 

Por que nos importar com isso, sejam adolescentes na casa dos 20 anos ou mais velhos? Porque, se enxergarmos o período adolescente apenas como uma época que devemos atravessar com dificuldade, uma época de que temos de atravessar, deixaremos de dar alguns passos importantes para aproveitar o essencial da adolescência. Quando encarada a centelha emocional, o engajamento social, busca por novidades e explorações criativas na adolescência como aspectos positivos e necessários do que os adolescentes são – e de quem poderiam se tornar como adultos se puderem cultivar essas qualidade -, essa fase se torna grande importância a qual não se deveria apenas sobreviver, mas cultivar.

Sim, há desafios em ficar aberto ao “trabalho” da adolescência. Oportunidades para a expansão e o desenvolvimento durante essa época podem ser associadas ao estresse para adolescentes e para os pais que os amam. Por exemplo, o afastamento da família que os adolescentes tendem a adotar pode ser visto como um processo necessário que os capacita a deixar a casa. Essa coragem para sair de casa e ir embora é criada pelos circuitos de gratificação do cérebro, que se tornam cada vez mais ativos e inspiram os adolescentes a buscar novidades, a encarar o que não é familiar, enquanto caem no mundo. Afinal de contas, o familiar pode ser seguro e previsível, enquanto o não familiar pode ser imprevisível e repleto de perigos em potencial.  Uma visão histórica para nós, mamíferos sociais, é a seguinte: se os adolescentes mais velhos não deixassem suas casas e fossem para longe de seus familiares, nossas espécies teriam mais chances de procriação consangüínea e nossa genética sofreria muito. E, para a história humana em geral, a saída dos adolescentes para explorar o mundo permite à nossa família humana ser bem mais adaptável conforme as gerações prosseguem. Nossas vidas, como indivíduo e coletividade, dependem desse afastamento característico do adolescente.

 

Por mais difícil que seja para os pais se preocuparem com o comportamento potencialmente arriscado de seus filhos adolescentes, o viés positivo do pensamento hiper-racional ajuda os jovens a correrem riscos que vão precisar correr se pretendem deixar o ninho e explorar o mundo.  O  impulso para ter cada vez mais contatos sociais pode os manter seguros conforme associam com os seus iguais adolescentes, que também estão fazendo a jornada para o mundo não familiar. A maior sensibilidade com relação a estes estados emocionais aumentados e à influencia dos pares – a centelha emocional e engajamento social – também são fundamentais para essa jornada. Buscar novidades e criar novas maneiras de fazer as coisas também ajuda a espécie a se adaptar a um mundo eternamente em mudança. Se ao longo da vida o cérebro é de fato um “trabalho em processo”, como sugerem estudos recentes, então o que ocorre durante a adolescência é muito mais do que um processo de transição da imaturidade para a maturidade. O essencial da adolescência enriquece a jornada de vida para que a abracemos completamente.

 

O que estamos percebendo é que há um conjunto crucial de alterações cerebrais durante a adolescência que cria novos poderes, novas possibilidades e novos sentidos que alimentam a mente e os relacionamentos juvenis que simplesmente não existiam na infância. Esses potenciais positivos costumam estar ocultos, mas ainda podem ser descobertos e usados de forma mais eficaz e sábia quando sabemos como encontrá-los e como cultivá-los. Podemos aprender a usar a ciência de ponta para tirar o máximo proveito desse período da vida. É um investimento a ser pago no futuro para todos os envolvidos.  

Para o adolescente o desenvolvimento do próprio corpo, com alterações na fisiologia, hormônios, órgãos sexuais e as mudanças arquiteturais no cérebro também podem contribuir para a nossa compreensão da adolescência como um importante período de transformação. As emoções em mudança revolucionam o modo com se sentem, na adolescência, tornando mais complexos os modos de processar as informações e as ideias sobre nós mesmos e sobre os outros, e mesmo criando grandes mudanças de desenvolvimento e transições no sentido interior de quem são e de quem podem se tornar. É assim que se move e evolui o sentido de identidade ao longo da adolescência.

 A partir do interior, essas alterações podem se tornar devastadoras, estes, podem perder o caminho e achar que a vida às vezes é “demais”. Do exterior, tais mudanças podem às vezes dar a impressão de que estão perdidos e “fora do controle”. Os anos adolescentes, uma época da vida repleta de desafios que pode reforçar quem  são, e, podem sem dúvida, ser difícil. Mas a ótima notícia é que, com o aumento da autoconsciência de nossas vidas emocionais e sociais, e com uma maior compreensão da função e da estrutura do cérebro, os efeitos positivos poderosos das mudanças complexas que ocorrem durante a adolescência podem ser aproveitados com postura e compreensão adequadas.

Gra Lemes 
Campanha-MG